
Uma power station pequena, dessas de 250 a 300 Wh, segura uma geladeira comum de 400 litros por umas 3 horas, e uma de 700 a 800 Wh fica entre 7 horas e meia e 9 horas e meia, desde que ela aguente o pico de partida do compressor. Essa conta sai da etiqueta do Inmetro que está colada na sua geladeira, então antes de olhar qualquer modelo eu pegaria o número de kWh/mês que aparece ali e dividiria por 720, que é o total de horas de um mês, pra ter o consumo médio em watts.
O que mais derruba a expectativa de quem compra normalmente é a saída, e não a capacidade, porque o motor da geladeira puxa duas ou três vezes mais potência no instante em que liga, e se a power station não segurar esse pico ela desarma e a geladeira nem chega a gelar. Então são dois números pra conferir, a capacidade em Wh, que diz quanto tempo dura, e a potência de saída em W, que diz se liga ou não.
A conta que eu faria antes de comprar
No domingo, 25 de outubro de 2026, um temporal com rajadas de quase 90 km/h deixou cerca de 636 mil clientes da Cemig sem energia em Minas Gerais, e no fim da tarde ainda havia 221 mil sem luz em Belo Horizonte e região, segundo o Estado de Minas, e a Folha contou, num texto reproduzido pelo CanalEnergia, que o clima ligado ao El Niño já derrubou mais de 290 torres de transmissão no país desde julho. Quem fica 6, 8, 12 horas sem luz começa a pensar na geladeira, e é aí que a power station aparece como alternativa ao gerador a gasolina.
A etiqueta é o melhor ponto de partida porque ela traz o consumo medido em teste, e não a potência de placa, que é sempre maior. O Idec usa como exemplo duas geladeiras de 400 litros com selo A, uma de 48,4 kWh/mês e outra de 57,0 kWh/mês. Dividindo por 720 horas, a primeira gasta em média uns 67 W e a segunda uns 79 W, e esse é o número que entra na conta da autonomia. Só que geladeira mais antiga, com a borracha da porta ressecada ou instalada encostada no fogão, provavelmente gasta mais do que diz a etiqueta de quando ela era nova, então nesse caso eu somaria uns 20% por conta própria, sabendo que é chute de margem e não número medido.
Depois disso, descontei 15% de perda, que é o fator que a SlashGear usa nas contas dela, porque a bateria guarda energia em corrente contínua e o inversor transforma em corrente alternada pra tomada, e nessa conversão sempre se perde um pedaço. Então a conta fica capacidade em Wh vezes 0,85, dividido pelo consumo médio da geladeira.
| Modelo | Capacidade | Saída contínua | Geladeira de 67 W | Geladeira de 79 W |
|---|---|---|---|---|
| EcoFlow RIVER 3 | 245 Wh | 300 W | cerca de 3 h | cerca de 2 h 40 |
| EcoFlow RIVER 3 Plus | 286 Wh | 600 W | cerca de 3 h 40 | cerca de 3 h |
| EcoFlow RIVER 3 Max | 572 Wh | 600 W | cerca de 7 h | cerca de 6 h |
| BLUETTI AC70 | 768 Wh | 1.000 W | cerca de 9 h 40 | cerca de 8 h |
As capacidades e saídas da EcoFlow são da página brasileira da série RIVER 3, e as da BLUETTI são da ficha do AC70 na loja oficial britânica, porque eu não achei a mesma ficha completa no site brasileiro. Esses tempos são estimativa minha a partir dos números oficiais, não teste de bancada, e eu não encontrei nenhum teste independente com geladeira brasileira ligada numa dessas pra comparar.
E claro, deixei preço fora da tabela, porque muda toda semana.
O pico da partida, que é onde muita gente erra
A geladeira não fica puxando energia o tempo todo, o compressor liga, gela, desliga e volta a ligar, e a SlashGear cita uma regra de mercado de que ele fica ativo por volta de 30% do tempo. Só que cada vez que ele arranca, por uma fração de segundo, a potência pode chegar a duas ou três vezes a de funcionamento, e é esse pico que a power station precisa aguentar.
A própria EcoFlow, na página da RIVER 3, dá um exemplo bem pessimista, de uma geladeira de 400 W rodando por 31 minutos na RIVER 3 Plus. Esse exemplo parte da geladeira puxando 400 W sem parar, o que geladeira doméstica não faz, mas ele serve como alerta de que não dá pra confiar só na capacidade. Pra mim o critério seguro é olhar a potência que está na placa de identificação da sua geladeira, multiplicar por três, e conferir se o resultado fica abaixo da saída contínua da power station, sem contar com nenhum modo turbo.
E falo do turbo porque os dois fabricantes têm um. A EcoFlow chama de X-Boost, que sobe a RIVER 3 Plus de 600 W pra 1.200 W, e a BLUETTI chama de Power Lifting, que leva o AC70 a 2.000 W, mas a própria BLUETTI escreve que esse modo é pra cargas resistivas, que é chaleira, secador, aquecedor. Compressor de geladeira não é carga resistiva, e eu não achei a EcoFlow garantindo que o X-Boost dá conta de partida de motor, então eu trataria esses números como inexistentes na hora de escolher pra geladeira.
O que mais dá pra ligar junto, e o que não dá
Roteador e modem gastam pouco. A EcoFlow diz que a RIVER 3 Plus segura um roteador Wi-Fi por cerca de 35 horas, número de teste interno dela, e isso combina com o que eu já mostrei no texto sobre nobreak pra roteador de fibra. Celular, notebook e uma lâmpada de LED também entram na conta sem drama, então o uso mais comum que eu vejo fazendo sentido é a geladeira mais a internet, com os celulares carregando junto.
O que não entra de jeito nenhum é chuveiro elétrico, que passa fácil de 5.000 W, ar-condicionado e micro-ondas ligado junto com a geladeira, porque a soma estoura a saída das power stations dessa faixa. Até dá pra esquentar alguma coisa rapidinho no micro-ondas com a geladeira desligada, mas aí cada minuto de micro-ondas come uma boa parte da bateria, e eu preferiria guardar essa carga pra geladeira.
Um ponto que pouca gente confere é a tensão. Geladeira 127 V precisa de power station com saída 127 V, e geladeira 220 V precisa da versão 220 V, então na hora de comprar olhe a voltagem da versão anunciada, porque muitos modelos são vendidos em duas versões e a ficha internacional nem sempre diz qual chegou aqui.
Qual tamanho eu escolheria
A escolha depende mais do histórico da sua rua do que da geladeira em si. Se você quer só atravessar a queda de luz comum, aquela de 2 a 3 horas que acontece algumas vezes por ano, uma power station na faixa de 250 a 300 Wh com 600 W de saída já resolve, segura a geladeira nesse intervalo e ainda sobra pro roteador. Já se a sua região tem histórico de ficar a noite inteira sem energia, como aconteceu no último domingo em Belo Horizonte, eu iria direto pra faixa de 700 Wh pra cima, porque comprar pequeno e precisar de bateria extra depois costuma sair mais caro.
A química da bateria também pesa. As da EcoFlow e da BLUETTI citadas aqui usam LiFePO4, lítio ferro fosfato, e as duas marcas falam em 3.000 ciclos de vida útil, com a BLUETTI especificando que é até a capacidade cair pra 80%, o que dá muitos anos pra quem só usa em queda de luz. A recarga também ajuda, a BLUETTI fala em 1,3 a 1,6 hora no carregamento rápido pela tomada, então quando a luz volta dá pra deixar ela pronta de novo antes da próxima queda.
Outro recurso que pode valer a pena é a função de nobreak, que a EcoFlow chama de UPS e diz trocar em menos de 10 ms na RIVER 3 Plus e na Max e em menos de 20 ms na RIVER 3 básica, e a BLUETTI em 20 ms. Com ela a power station fica na tomada e a geladeira ligada nela, e quando a luz cai a troca acontece sozinha, sem você precisar estar em casa. Só que nenhuma das duas marcas promete que a geladeira nem percebe a troca, então eu faria o teste de tirar da tomada que explico no fim.
Quando o gerador ou o nobreak fazem mais sentido
O nobreak comum de computador não serve pra geladeira, porque ele foi feito pra segurar alguns minutos até você salvar o trabalho e desligar, e a bateria dele é pequena. Eu já expliquei por que nobreak às vezes nem segura o PC, e geladeira é uma carga ainda mais chata por causa do compressor.
Gerador a gasolina em geral faz sentido pra quem fica dias sem energia, sítio, chácara, lugar onde a rede cai toda semana, porque aí nenhuma bateria portátil dá conta. Mas ele precisa ficar do lado de fora, longe de janela e porta, porque solta monóxido de carbono, e faz barulho, o que em apartamento já elimina a opção. Agora, pra casa e apartamento na cidade, com queda de algumas horas, eu fico com a power station, a não ser que a sua região passe mais de um dia inteiro sem luz com frequência.
Antes da próxima tempestade
Se você já tem uma, ou vai comprar, eu faria um teste com a luz ainda funcionando: tira a geladeira da tomada, liga na power station e deixa umas 2 horas, olhando no visor quanto a bateria caiu e se ela desarmou em alguma partida do compressor. Esse teste vale mais que qualquer tabela, inclusive a minha, porque a geladeira de cada casa tem idade, vedação e temperatura de ambiente diferentes, e em dia de calor forte o compressor trabalha mais.
Durante a falta de luz, abra a porta o mínimo possível e, se tiver gelo ou garrafas de água congeladas, deixe dentro, que é a dica que a SlashGear repete pra esticar o tempo. E quando a energia voltar com oscilação, como costuma acontecer depois de temporal, a power station no modo nobreak ainda ajuda a segurar o tranco, mas se algum aparelho queimar na volta da luz, tem aqui o prazo e o caminho pra pedir ressarcimento à distribuidora.
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